Muitas vezes, uma criança não chora nem grita por ajuda. Ela apenas deixa de pedir. Aprende a não mostrar expectativa, a não buscar atenção. A tarefa de viver sua infância sem convívio, sem carinho, sem afeto mesmo quando há “presença física” cala fundo. E quando essa ausência emocional se repete, dia após dia, ela deixa marcas que duram a vida toda.
Até pouco tempo, esse sofrimento era visto apenas como “questão de família” ou “problema íntimo”. Dava dor, dava dor psicológica, mas raramente ganhava respaldo real no sistema de Justiça.
Agora, isso mudou.
Com a nova legislação, o abandono afetivo ou a omissão repetida de carinho, presença, cuidado e convivência deixou de ser apenas uma falha moral ou social. Ele ganhou status de violação legal, passível de responsabilização.
A lei passou a exigir dos pais ou responsáveis não apenas o sustento, a guarda e a educação, mas também assistência afetiva: convivência regular, acompanhamento, orientação, apoio nos momentos difíceis. Quando esses deveres não são cumpridos, e a omissão é injustificada e persistente, pode haver reparação por danos.
Ou seja: ausentar-se emocionalmente da vida de um filho não é mais um “erro da vida” a ser desculpado. É uma violação de direitos e pode ser objeto de ação judicial. Isso significa, na prática, que quem sofre com abandono afetivo tem respaldo, tem reconhecimento, tem chance de buscar justiça.
Esse reconhecimento importa de verdade. Porque a criança que cresce sem afeto não perde apenas abraços: perde segurança, perde autoestima, perde a base emocional para construir relações saudáveis, para confiar em si e nos outros.
E quando o Estado define que o afeto é parte do dever de quem é responsável por uma criança, ele dá voz àquela dor silenciosa. Dá valor ao vazio emocional que antes parecia “normal”. Dá chances para reparação jurídica e simbólica.
Se você olha para sua história e identifica esse vazio; se sua infância foi marcada por presença física vazia ou ausência repetida de cuidado emocional; se hoje lida com sequelas desse desamparo saiba que seu sentimento tem nome, tem respaldo e pode ter resposta.
Porque responsabilidade parental não é só prover materiais. É cuidar da alma. É estar presente de verdade. E agora a lei reafirma isso.