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A tragédia em Goiás e o retrato da violência de gênero nas rupturas afetivas

por Leticia Rezende
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Na última semana, Goiás foi atravessado por uma tragédia devastadora: um homem matou os dois filhos e, em seguida, tirou a própria vida após descobrir uma suposta traição da esposa.

Dói escrever.
Mas é preciso falar.

Porque esse caso não é apenas uma tragédia familiar.
Ele escancara uma estrutura antiga: a violência que nasce quando a mulher rompe a expectativa.

A traição tem gênero?

Traições acontecem. São moralmente discutíveis, emocionalmente dolorosas e, muitas vezes, devastadoras. Mas existe uma pergunta incômoda que precisa ser feita:

Quando o homem trai, como a sociedade reage?
E quando é a mulher?

Historicamente, a infidelidade masculina foi tolerada, relativizada, até romantizada. “Coisa de homem.” “Erro momentâneo.” “Instinto.”

Já a mulher que trai costuma receber outro rótulo: desonra, vergonha, julgamento público, exposição moral.

Não é sobre defender traição.
É sobre questionar por que a resposta à traição feminina, em tantos casos, envolve violência.

Violência como punição

Quando um homem reage com agressão, ameaça ou, em casos extremos, com a morte, não estamos diante de um “crime passional”. Estamos diante de violência de gênero.

A ideia de que a mulher “provocou”, “desrespeitou” ou “humilhou” sustenta uma narrativa perigosa: a de que o homem teria sido levado ao limite.

Mas ninguém é levado a matar por uma traição.
O que existe é a crença de que a mulher não pode escolher sair, errar ou romper, sem pagar um preço trágico.

A Lei Maria da Penha reconhece que a violência contra a mulher não é apenas física. Ela pode ser psicológica, moral, patrimonial. Ela pode começar com controle, humilhação, vigilância constante.

E muitas vezes, quando o relacionamento termina ou a mulher assume autonomia, a violência se intensifica.

Filhos como instrumento de vingança

No caso recente, os filhos foram usados como meio de atingir a mãe.

Essa é uma das formas mais cruéis de violência: ferir a mulher através do que ela tem de mais precioso.

Não se trata apenas de um ataque contra crianças.
É uma mensagem de punição.

É o recado final de quem acredita que perdeu o controle e precisa destruir para não se sentir derrotado.

O que ainda normalizamos

Quantas vezes ouvimos frases como:

“Se não for minha, não será de ninguém.”
“Mulher que trai merece sofrer.”
“Ele perdeu a cabeça.”

Essas frases não são inofensivas.
Elas sustentam uma cultura onde o homem é ensinado a associar masculinidade a domínio.

E quando esse domínio é questionado, a reação pode ser explosiva.

Segundo dados nacionais recentes, a violência doméstica e o feminicídio continuam em crescimento em diversas regiões do país. Goiás, infelizmente, não está fora dessa realidade.

Não são casos isolados.
São reflexos de uma estrutura.

Precisamos mudar a narrativa

Não é a traição que mata.
Não é o término que mata.
Não é a separação que mata.

O que mata é a ideia de que a mulher deve pagar por romper expectativas.

Como advogada de família, eu vejo de perto o quanto o momento da ruptura é sensível. É quando ameaças aparecem. Quando o controle se intensifica. Quando a mulher sente medo de decisões que deveriam ser apenas emocionais, mas se tornam questão de segurança.

Não podemos mais tratar essas tragédias como episódios passionais.

São episódios de violência.

E violência contra a mulher não começa no ato extremo.
Ela começa no controle.
Na posse.
No julgamento desigual.

Enquanto a traição masculina for tratada como falha tolerável e a feminina como afronta imperdoável, continuaremos produzindo relações baseadas em poder e não em respeito.

Falar sobre isso não é explorar dor.
É impedir que ela se repita.

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