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José Caio Vaz Ferreira – Advogado
A decisão do ministro Alexandre de Moraes que manteve a condenação de Jair Bolsonaro e determinou a execução imediata da pena provocou um abalo profundo no cenário político nacional. Entretanto, o que mais chamou atenção não foi a contundência do julgamento, mas sim a postura surpreendentemente silenciosa dos principais aliados do ex-presidente.
Embora se apresentem publicamente como defensores da liberdade e críticos ferrenhos de supostos abusos institucionais, muitos desses parlamentares e líderes partidários optaram por recuar. A ausência de declarações firmes, notas de repúdio ou articulações políticas robustas revela um movimento que vai além da cautela: expõe um silêncio cúmplice que fortalece o ambiente de desequilíbrio institucional que dizem combater.
Um silêncio estratégico ou conveniente?
No momento em que se esperava uma reação política articulada, a base bolsonarista preferiu adotar um discurso morno. As manifestações se limitaram a comentários genéricos nas redes sociais, lamentos isolados ou críticas superficiais. Nenhum líder se dispôs a enfrentar de forma direta as decisões controversas de Moraes, tampouco a defender com vigor garantias constitucionais que deveriam ser universais — independentemente do nome e do lado político.
Essa omissão evidencia que, para muitos, o enfrentamento ao Supremo era mais performático do que jurídico ou democrático. Quando o risco se torna concreto, o discurso inflamado dá lugar a um silêncio calculado, que revela falta de coragem política e ausência de compromisso com a coerência.
A democracia exige voz, não omissão
Concorde-se ou não com Bolsonaro, qualquer uso excessivo de poder por parte de uma autoridade merece questionamento público. Essa é a essência de uma república saudável. No entanto, ao se absterem, seus aliados reforçam a ideia de que a defesa de princípios democráticos só vale quando convém ao próprio grupo.
O silêncio atual não apenas enfraquece a oposição, mas também abre espaço para que decisões judiciais duras e sem contestação pública se tornem rotina. Quando quem deveria falar decide se calar, quem perde é o debate democrático — e, em última instância, o cidadão comum.
Silêncio não é prudência: é abdicação
A postura dos aliados de Bolsonaro escancara uma contradição. Eles se apresentam como guardiões da liberdade, mas se recolhem justamente quando essas liberdades parecem ameaçadas. Falam em independência dos poderes, mas assistem sem reação a movimentos que, no mínimo, mereceriam escrutínio.
Ao não denunciarem eventuais excessos, fortalecem a narrativa de que as instituições podem agir sem contraponto. E, ao contrário do que possa parecer, essa postura não protege ninguém — apenas consolida precedentes perigosos.
O momento exige firmeza, responsabilidade política e coerência. No entanto, a base bolsonarista prefere contemplar o cenário à distância, esperando que a tempestade passe sozinha.
Esse silêncio, contudo, não é neutro. Ele legitima, reforça e normaliza os excessos que a própria oposição diz combater. Em uma democracia, calar diante de abusos não é prudência. É renúncia. E renunciar ao debate público, especialmente em temas tão sensíveis, significa abandonar o papel que a sociedade espera de seus representantes.