Às vezes, o que mais dói não é a separação. É a permanência em um lar onde o amor já não existe.
Todos os dias, no exercício da advocacia de família, eu escuto uma frase que se repete de formas diferentes, mas com o mesmo peso:
“Dra., eu não sou mais feliz, mas continuo aqui por causa dos meus filhos.”
Essa escolha, quase sempre feita pelas mães, não nasce da covardia, mas do amor. Um amor que se coloca em segundo plano para tentar preservar a infância, a rotina, a sensação de família. Mas é justamente aí que mora a reflexão necessária: que tipo de lar estamos, de fato, preservando?
É inegável que o divórcio é um evento traumático. Ele rompe expectativas, mexe com a estrutura emocional das crianças e exige adaptações profundas. O Direito de Família não ignora isso pelo contrário, ele existe justamente para minimizar danos.
Mas existe um ponto pouco discutido, e extremamente sensível: o trauma silencioso de crescer em uma casa onde o amor já não mora.
Crianças percebem. Mais do que imaginamos.
Elas percebem quando os pais dormem em quartos separados sem explicação. Quando não há diálogo, mas há tensão. Quando não existem gestos de carinho, mas existem discussões veladas, silêncios longos e um clima constante de desconforto. Elas aprendem, ainda que sem palavras, que relacionamento é isso: tolerar, suportar, silenciar.
E aqui entra a reflexão que vai além da emoção e alcança o campo jurídico.
O Direito de Família contemporâneo deixou de proteger apenas a ideia formal de família e passou a proteger a dignidade das pessoas que a compõem, e principalmente das crianças. O princípio do melhor interesse do menor não se limita à manutenção de um teto comum. Ele envolve ambiente saudável, segurança emocional e referências afetivas minimamente equilibradas.
Manter um casamento esvaziado apenas pela aparência de estabilidade pode, em muitos casos, gerar mais prejuízos emocionais do que uma separação conduzida com responsabilidade.
Do ponto de vista jurídico, é importante compreender que o divórcio, hoje, não representa abandono, fracasso ou ruptura de parentalidade. Pai e mãe continuam sendo pai e mãe. O que se encerra é a relação conjugal, não o dever de cuidado, presença e responsabilidade.
Quando bem orientada, a separação pode ser estruturada com:
guarda definida de forma clara;
convivência equilibrada;
e, sobretudo, previsibilidade para a criança.
O caos não nasce do divórcio em si. Ele nasce do conflito mal resolvido, da ausência de diálogo e da falta de orientação jurídica adequada.
É preciso dizer, com responsabilidade: permanecer juntos não é sinônimo de proteger os filhos. Em alguns contextos, é apenas adiar uma dor que se intensifica no silêncio.
Essa reflexão não é, de forma alguma, um direcionamento automático ao divórcio, nem um incentivo à ruptura precipitada. O objetivo aqui não é apontar um caminho único, mas provocar uma análise honesta e individual de cada realidade.
Cada família é única. Cada criança sente de um jeito. Cada relação carrega sua própria história, seus limites e suas possibilidades. Há contextos em que permanecer, com diálogo, reconstrução e respeito, é possível e saudável. Em outros, insistir acaba prolongando um sofrimento silencioso, especialmente para quem mais se quer proteger.
O ponto central da reflexão é este: qual é, de fato, a melhor decisão para o seu filho dentro da realidade que vocês vivem hoje?
Preservar não é apenas manter uma estrutura formal. Preservar é cuidar do ambiente emocional. É avaliar se o lar em que a criança cresce é um espaço de segurança, afeto e referências saudáveis ou se, na tentativa de proteger, está se criando um cenário de desamor, tensão e distanciamento.
Muitas mães permanecem por amor aos filhos, mas acabam, sem perceber, permitindo que eles cresçam em um ambiente emocionalmente tóxico, onde o silêncio machuca mais do que a verdade conduzida com responsabilidade.
Ficar está realmente protegendo ou apenas mantendo uma aparência socialmente aceitável?
Como advogada de família, meu papel não é apenas peticionar ou apontar caminhos jurídicos. É escutar histórias reais, acolher dores que não aparecem nos processos e ajudar mães e pais a tomarem decisões conscientes jurídicas e humanas diante de um dos momentos mais delicados da vida familiar.
Essa reflexão nasce da prática, do atendimento diário a famílias que chegaram até o Judiciário depois de esgotarem todas as tentativas possíveis. Não existe resposta pronta, nem decisão perfeita. Existe a melhor decisão possível dentro da realidade concreta de cada família.
Porque filhos não precisam de pais juntos a qualquer custo. Eles precisam de pais emocionalmente responsáveis, presentes e conscientes estejam juntos ou não.
Leticia Rezende de Almeida
Advogada especialista em Direito de Família
Instagram @leticiarezende_adv