Início » A militância chegou ao processo criminal e transformou a responsável em vítima

A militância chegou ao processo criminal e transformou a responsável em vítima

por José Caio Vaz
0 comentários

Poucas decisões judiciais retratam tão bem a crise de valores que atravessa o Brasil quanto o perdão judicial concedido a Monique Medeiros.

A mensagem transmitida à sociedade é devastadora.

Seja conivente com as agressões ao próprio filho, minta para médicos, policiais e conselheiros tutelares para proteger o namorado, Ajude a sustentar versões que ocultem a verdade, ignore sinais sucessivos de violência, horas depois da morte da criança, vá ao salão hidratar o cabelo.

Depois, receba perdão judicial.

Não porque os fatos deixaram de existir, não porque a conduta tenha sido considerada exemplar. Mas porque a análise passou a enxergá-la prioritariamente como vítima.

O aspecto mais impressionante da decisão é que a discussão deixou de girar em torno de Henry Borel e passou a girar em torno de Monique Medeiros, a criança morta desaparece do centro do processo, a mãe assume esse lugar.

A vítima principal da tragédia passa a ser tratada quase como personagem secundária.

Na fundamentação, a magistrada menciona misoginia, questões de gênero, cultura patriarcal e a cobrança social direcionada às mães. Argumenta que Monique teria sido julgada mais severamente por ser mulher e que um homem, em situação semelhante, possivelmente não receberia o mesmo tratamento.

Mas existe uma pergunta que a população brasileira tem o direito de fazer.

O que tudo isso muda em relação ao dever de uma mãe proteger o próprio filho? O que o patriarcado muda diante de uma criança que apresentava sinais de agressão? O que a misoginia altera em relação às mentiras contadas a médicos, policiais e conselheiros tutelares? O que a crítica social às expectativas maternas modifica no resultado concreto sofrido por Henry?

A resposta é simples. Não muda nada.

A obrigação de proteger uma criança continua existindo, a responsabilidade individual continua existindo, os fatos continuam existindo.

O problema surge quando teorias sociais passam a funcionar como lentes capazes de suavizar responsabilidades que, em qualquer outro contexto, seriam tratadas com muito mais rigor.

A decisão cria uma sensação perigosa de que determinadas narrativas possuem força suficiente para transformar responsáveis em vítimas e deslocar o foco da conduta praticada para a condição pessoal de quem a praticou.

Nenhuma sociedade séria consegue funcionar dessa forma. A Justiça existe para analisar fatos, condutas e responsabilidades.

Quando conceitos ideológicos passam a ocupar o centro da decisão, a confiança pública começa a desaparecer e talvez seja exatamente por isso que tanta gente tenha reagido com perplexidade ao conhecer a sentença.

Porque, para milhões de brasileiros, Henry Borel foi novamente colocado em segundo plano. E quando até uma criança morta deixa de ser o centro da discussão, fica difícil acreditar que este país tenha alguma chance de dar certo.

Você também pode gostar

Deixe um comentário