Com limitações fiscais e juros elevados, governo aposta em mercado financeiro e cooperativas para sustentar financiamento do agro
O Plano Safra 2026/2027 deve marcar uma nova fase no financiamento do agronegócio brasileiro, com maior participação do crédito privado e menor dependência de recursos diretos do Tesouro Nacional.
A avaliação de técnicos da equipe econômica é de que, diante do cenário de juros elevados e restrições fiscais, o crescimento do crédito público será mais limitado, abrindo espaço para instrumentos de mercado e cooperativas de crédito.
Mudança no modelo de financiamento
A transição ganhou força após a abertura do modelo de distribuição dos recursos equalizados, que deixou de ser concentrado no Banco do Brasil e passou a contar com cerca de 25 instituições financeiras.
Com a maior concorrência, o spread das operações caiu de 4,81% para 2,90%, favorecendo a entrada e expansão de cooperativas como Sicredi, Sicoob e Cresol.
A Cresol, por exemplo, ampliou seus ativos de menos de R$ 10 bilhões para mais de R$ 50 bilhões em poucos anos, consolidando o avanço do modelo cooperativista no campo.
Baixa inadimplência e modelo mais próximo
Segundo especialistas, o diferencial das cooperativas está no atendimento mais próximo ao produtor rural, com acompanhamento individualizado e maior capacidade de renegociação antes que as dívidas se tornem inadimplentes.
Em contraste, experiências anteriores de grandes bancos no setor enfrentaram dificuldades. Relatos indicam que a Caixa Econômica Federal chegou a registrar inadimplência próxima de 30% em algumas linhas de crédito rural, após expansão sem estrutura adequada de monitoramento.
Aperto no crédito e impacto da regulação
O cenário também foi impactado pela Resolução 4.966 do Banco Central, que passou a exigir reconhecimento antecipado de perdas nas carteiras de crédito. A medida tornou os bancos privados mais seletivos, especialmente em um momento de elevado endividamento no setor.
A consequência foi uma onda de recuperações judiciais no agronegócio, que deteriorou o ambiente de crédito e reforçou o movimento de restrição por parte das instituições financeiras.
Mercado de capitais ganha protagonismo
Nesse contexto, o financiamento privado do agro segue robusto. Em março, o volume se manteve em torno de R$ 1,4 trilhão, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária.
Entre os principais instrumentos, a Cédula de Produto Rural registrou alta de 17% em relação ao ano anterior, enquanto a Letra de Crédito do Agronegócio cresceu 6% e os Certificados de Recebíveis do Agronegócio avançaram 15% no mesmo período.
O crédito rural empresarial já soma R$ 404 bilhões na safra atual, sustentado principalmente por esses instrumentos de mercado.
Proposta e desafio para 2026/2027
Para o próximo ciclo, a Organização das Cooperativas Brasileiras propõe um Plano Safra de R$ 674 bilhões — acima dos cerca de R$ 594 bilhões atuais —, sendo R$ 520 bilhões destinados a custeio e comercialização e R$ 154 bilhões para investimento e agroindustrialização.
O principal desafio será equilibrar a ampliação do crédito com a taxa básica de juros ainda elevada, sem pressionar os gastos públicos.
A tendência, segundo técnicos, é de crescimento mais moderado, próximo à inflação, consolidando um modelo mais competitivo, pulverizado e com menor dependência do Tesouro Nacional.
