De enzimas que lavam jeans sem agredir meio ambiente a tecidos frios para ondas de calor cada vez mais frequentes, indústria que fatura mais de R$ 10 bilhões por ano no estado deve investir em inovação para garantir sua continuidade
A indústria do vestuário em Goiás é um gigante econômico. Gera mais de R$ 10 bilhões em riquezas por ano e emprega mais de 200 mil trabalhadores. Atualmente, enfrenta um dilema comum a outros arranjos produtivos: a concorrência internacional, sobretudo chinesa. Para fazer frente a esse desafio, empresários e postulantes a cargos políticos apostam em propostas de incentivo à fabricação de produtos que entregam sustentabilidade e tecnologia embarcada como forma de fazer frente à ‘maré asiática’.
De acordo com dados da Federação de Indústrias do Estado de Goiás (FIEG), o setor têxtil responde por 11,5% do PIB industrial goiano. Quando se fala na capital, essa participação proporcional quase triplica: o ramo de vestuário abrange 32,5% da produção industrial goianiense. A maior parte dessa produção é absorvida pelo segundo maior pólo de vestuário do Brasil: a Região da 44, que faturou mais de R$ 5,7 bilhões no ano passado, de acordo com a Associação Empresarial que representa o polo (AER44). O polo gera mais de 250 mil vagas laborais, entre empregos diretos e indiretos.
Todo esse gigantismo econômico enfrenta uma ameaça: o comércio eletrônico, a partir de plataformas digitais como Shein, Temu e Shopee, que operam com produtos finais de origem asiática, normalmente chinesa e tailandesa. De acordo com monitoramento realizado pela AER44, o polo goianiense, cuja base é predominantemente de lojas físicas, vem perdendo espaço. E mais: dentro do próprio hub de vestuário, estima-se que a cota de participação da produção local no comércio da Região da 44 atualmente seja de um share (“fatia” de mercado) de 65%. No início das atividades, a totalidade das operações do hub era abastecida pela indústria local.
Quem reflete sobre o cenário tem uma certeza: vale a pena batalhar pela manutenção de um mercado que atrai, semanalmente, cerca de 250 mil turistas para Goiânia e é responsável por 5,5% da produção de vestuário em todo o Brasil, segundo dados do Instituto de Estudos e Marketing Industrial (IEMI).
Tecnologia e sustentabilidade
Para o empresário e pré-candidato a deputado estadual Felipe Mabel (Podemos), a melhor estratégia para assegurar a continuidade da influência e pujança da indústria têxtil goiana e da Região da 44 é o investimento em duas frentes: tecnologia e sustentabilidade. “Pensando no futuro, é preciso focar na transição da Região da 44 como um polo tecnológico sustentável, porque competir com os asiáticos no quesito preço é impossível, por causa da escala de produção que eles conseguem”, explica.
O empresário avalia duas estratégias que podem ser especialmente eficientes: a mudança no processo produtivo do jeans e o investimento em tecidos tecnológicos. “As plantas podem adotar lavanderias industriais biológicas, com uso de enzimas em vez dos produtos químicos pesados que a fase da lavagem do jeans tradicionalmente demanda”, observa.
Em outra frente, o empresário e pré-candidato propõe o incentivo a um ramo da indústria têxtil goiana especialmente dedicado à fabricação de roupas funcionais. “Pode-se adotar o conceito das wearable techs (“tecnologias que se vestem”) para a fabricação de tecidos frios, usados em roupas adaptadas às ondas de calor que a população brasileira certamente vai enfrentar, já pensando em uma realidade de mudanças climáticas”, vislumbra.
Tributos e criatividade
Em relação a políticas públicas, Mabel avalia três possibilidades. “A primeira frente poderia ser a tributária, com a criação de um ICMS ou futuro IBS verde/tecnológico, com alíquota reduzida para produtos com impacto ambiental reduzido comprovado ou aporte de nova tecnologia embarcada”, comenta.
O pré-candidato também menciona os arranjos produtivos regionais e locais. “A segunda frente seria investir no incentivo à instalação de plantas de médio e grande porte, de tecelagens produtoras de tecidos tecnológicos, com uso de corantes ecológicos, nos nossos distritos industriais. Isso aumentaria a escala e diminuiria o custo dessa matéria prima diferenciada”, frisa.
Por fim, Mabel destaca o papel da economia da inovação via integração empresa-escola. “Eu acredito muito no conceito de empresa-escola, mas com uma pegada mais empreendedora. Nós precisamos mexer na legislação referente à criação de patentes no Brasil. Deixar o processo menos burocrático. E temos de criar linhas de crédito para recém-formados em cursos como química industrial. É preciso investir no profissional que tem uma boa ideia, deseja empreender no início de sua carreira, mas não tem os meios necessários”, explica.
Para o empresário, é preciso que a classe política adote essa capacidade de se antecipar a tendências futuras para determinar as políticas públicas necessárias a conferir estabilidade ao crescimento econômico. “Nós precisamos trabalhar com essa perspectiva de que o futuro é agora, já está acontecendo. Com criatividade e senso de realismo, podemos sim construir um futuro mantendo as bases para a nossa prosperidade, por maiores que sejam as mudanças à vista”, salienta.
